Paulo Sousa chega sob a sombra de Jorge Jesus. Era outro o português desejado no Flamengo

O plano B do Flamengo desembarcou no Rio. Ele sabe que sua missão será exorcizar o fantasma de Jesus, que derrubou Domènec, Rogério Ceni e Renato Gaúcho. Não será fácil

São Paulo, Brasil

Ele pode estar entusiasmado. 

Ter virado as costas para a Polônia, em plenas Eliminatórias para a Copa do Mundo do Catar.

Pago, do próprio bolso, a multa de 300 mil euros, cerca de R$ 1,9 milhão, para ir embora de Varsóvia.

Considerar o Flamengo o “melhor do mundo”.

Mostrar todo o entusiasmo ao desembarcar hoje no Rio de Janeiro. E colocar a camisa flamenguista, mostrando o vitórioso distintivo aos fotógrafos e câmeras para que transmitam sua alegria.

Mas Paulo Sousa é inteligente. Sabe que chega com uma sombra enorme às suas costas. E não é o telão que mandou instalar no Ninho do Urubu para gravar a movimentação dos jogadores e aprimorar, de forma instantânea, a movimentação do time. 

Sousa terá de superar a nostalgia da imensa maioria da diretoria, dos conselheiros, dos torcedores, da mídia carioca, por Jorge Jesus.

O português de 51 anos enfrentará o fantasma que prejudicou Domènec Torrent, Rogério Ceni e Renato Gaúcho. A saudade da temporada fabulosa de 2019, do time que encantou a América do Sul, sob o comando impressionante de Jesus.

“[Jorge Jesus] não é fantasma nenhum. É muito bom treinador, tem vindo a demonstrar isso ao longo da carreira. Sempre demonstrou a sua qualidade e a sua paixão, assim como eu também vou tentar expressar a minha”, disse o novo técnico do Flamengo, ainda em Lisboa, ao embarcar para o Brasil.

No Rio, hoje, no início da manhã, espertamente, ele evitou o tema. E se derramou em elogios ao Flamengo. Falou à TV do clube, sabendo que suas palavras seriam divulgadas pelos principais veículos de comunicação do Brasil.

“[Estou] Muito contente, muito feliz. Desde Portugal já senti o carinho. Durante a viagem, após a viagem… Estou entusiasmado. Não consegui completar o livro que ganhei. Vi muitos jogos da última temporada, não só do Flamengo mas dos nossos adversários.

“Dentro da carreira de um técnico, estas possibilidades não acontecem muitas vezes. Fui sempre vivendo o Flamengo, mesmo quando era jogador. Quanto se tem a chance de representar um clube desta grandeza, fico muito contente de estar neste projeto”, garantiu.

Sousa é conhecido por ser muito estratégico. Não só dentro, mas fora do campo também. Tem plena consciência dos erros cometidos por seus antecessores. Domènec quis forçar a mudança tática da equipe com seu “jogo posicional”, com os atletas sem tanta liberdade como nos tempos de Jesus. 

Sabe que alternar o time, sem critério, condenou Rogério Ceni. E que Renato Gaúcho treinava e fazia o time jogar da mesma forma, o que facilitou o trabalho dos adversários.

Não vai seguir nenhum desses três caminhos. Optará pelo estilo ofensivo, de domínio do adversário com forte marcação, pressão, de que gosta e que coincidiu examente com o que os dirigentes estavam buscando como plano B, já que Jorge Jesus não largou o Benfica a tempo de voltar para o Flamengo. 

“Gosto de ver as minhas equipes expressando todo o seu conteúdo romântico ou poético, individual e coletivo, de forma a que tenham domínio sobre o adversário, e esse domínio tem muito a ver, no meu ponto de vista, com espaço e com tempo. Requer, sem dúvida, uma inteligência tática importante.

“Procuramos ter uma identidade comum em todas as equipes, onde essa base permita ao indivíduo a tomada mais rápida de decisões perante esse tempo e espaço para que essa expressão poética possa ser a base do individual”, disse ao site Tribuna Expresso.

Mas hoje pela manhã Sousa foi claro. Disse que precisará de tempo e deixou implícito que ninguém cobre as vitórias imediamente.

“Fiz uma análise do elenco. A qualidade individual não é sinônimo de vitórias, e temos que trabalhar mais do que os outros para que a qualidade sobressaia. Na segunda, os jogadores precisam já ter tudo muito bem planejado.”

Ex-meia “pensante” do Benfica e até de Portugal na Copa de 2002, Sousa começou sua carreira como treinador na seleção portuguesa sub-16. Foi auxiliar de Felipão na Eurocopa de 2008. Assumiu o Queens Park Rangers, clube da Segunda Divisão Inglesa. Passou pelo Swansea e pelo Leicester, também britânicos. Foi para o Videoton, da Hungria. De lá, para o Macabi, de Israel. Passou pelo Basel, da Suíça. Pela Fiorentina, na Itália. Assumiu o Tianjin Quanjian, da China. Bourdeaux, na França. 

Acabou na seleção polonesa. Na primeira fase das Eliminatórias Europeias, o time, de fraco potencial, apesar de Lewandowski, até jogou bem. Mas foi lanterna no seu grupo, que tinha Suécia, Eslováquia e Espanha. Iria disputar a repescagem, teria a Rússia como primeira adversária, em março. Mas ele virou as costas à seleção com o convite do clube carioca.

Quanto aos principais rivais no país e, principalmente, na Libertadores, Sousa os conhece muito bem.

“O Atlético, por ser o último campeão do Brasileiro, é o clube de que todos querem ganhar. Mas há sempre o Palmeiras, penso que o Abel tem feito um trabalho extraordinário com cultura de vitórias e vencendo com as próprias ideias.”

Sousa garantiu que o “seu” Flamengo jogará de forma ofensiva, impositiva, como “todos querem”. O contrato vai até o final de 2023.

Colocar o time para atacar será o menor dos seus problemas.

O maior é outro.

Exorcizar a enorme sombra de Jorge Jesus.

Que conseguiu derrubar Domènec, Ceni e Renato Gaúcho.

Esse é o grande desafio do entusiasmado Sousa.

Era outro português o esperado na Gávea…

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